25/03/2026

— A EGV prepara os estudantes para o vestibular?
Sim, e de várias formas. Um bom Ensino Médio prepara para o vestibular — essa é uma premissa. Mas como nós preparamos? Por meio de múltiplas ações, pensadas para atender estudantes com percursos e objetivos diferentes.
— Por onde esse processo começa?
Logo no início do ano, pedimos que os estudantes registrem seus objetivos: quais cursos e universidades pretendem, se pensam em estudar fora do Brasil. Isso nos permite mapear expectativas e alinhar o planejamento. O professor também ajusta o percurso daquele ano de acordo com o perfil do grupo. A gente chama de ensino diferenciado e personalizado.
— Como funciona isso na prática?
Se tenho um estudante que quer Administração na FGV, ele precisa percorrer um caminho específico — esse vestibular tem um perfil de perguntas, uma exigência de áreas. Eu preciso acompanhar esse estudante nesse percurso. Por isso damos a ele algumas possibilidades concretas: as aulas, os simulados, a tutoria e os módulos preparatórios.
“Eu preciso percorrer junto com esse estudante. Por isso o ensino aqui é diferenciado e personalizado.”
— Como funcionam os simulados?
Temos dois formatos. Os simulados regulares acontecem durante o período de aulas, com participação de todos. E temos os simulados à la carte, que acontecem aos sábados. Nesse formato, o próprio estudante escolhe quais provas quer realizar, de acordo com seus objetivos — FUVEST, UNICAMP, UNESP, entre outras. Disponibilizamos uma planilha com todos os simulados do semestre e ele faz a sua inscrição. Quando chega ao simulado, já sabe que vai encontrar exatamente o formato da prova que está se preparando para fazer.
— E os módulos preparatórios, o que são?
São aulas no contraturno, no período da tarde, conduzidas por professores com muita experiência em vestibulares — vários deles são também corretores de provas. Acontecem em grupos pequenos, de oito a doze estudantes. Esse formato permite uma interferência mais individualizada: o tipo de resposta exigida, o formato das avaliações, as dúvidas específicas de cada um. O objetivo é que o estudante entenda não apenas o conteúdo, mas como demonstrar esse conhecimento nos diferentes formatos de prova.
“No módulo, você não está numa sala com trinta. Está ali mais restrito, e a gente pode interferir de forma muito mais individualizada.”
— O que é a tutoria?
É um encontro com a coordenação pedagógica ou a orientação educacional, em que acompanhamos o estudante de perto: cronograma de estudos, análise de resultados ao longo do ano, ajuste de estratégias. Mas vai além do técnico. A tutoria é também um espaço emocional — e isso é fundamental.
— Por que o lado emocional é tão relevante?
Temos muitos estudantes excelentes que tiram dez durante todo o percurso, mas que na hora do vestibular enfrentam muita ansiedade. A expectativa da escola, da família, deles mesmos — é grande. Às vezes a gente percebe que o estudante está rebaixando o ritmo de estudo por causa de uma preocupação que não foi nomeada. Reconhecer esses sinais e trabalhar com eles — e com a família — faz parte do nosso papel.
— Como você orienta os estudantes sobre esse equilíbrio?
Costumo dizer logo no começo do ano: cabe tudo. Cabe diversão, cabe a vivência com a família, cabe o espaço individual — e cabe um estudo mais apurado, porque o terceiro ano é um ano diferente. Vai ter festas que você vai deixar de ir? Vai. Mas é um ano. E é preciso equilíbrio — exagerar de um lado ou do outro não ajuda ninguém.
“Cabe tudo. Cabe diversão, cabe família, cabe espaço individual. E cabe um estudo mais apurado. O segredo é o equilíbrio.”
— O vestibular mudou muito nos últimos anos?
Muito. Hoje há mais universidades, mais cursos, mais formatos de prova. Antigamente parecia que a escolha era mais simples — eram algumas universidades públicas e algumas particulares. Hoje temos boas universidades em vários perfis, e o mesmo curso pode ter abordagens completamente diferentes dependendo da instituição. Um curso de psicologia pode ir mais para a área da saúde em uma universidade e mais para as ciências humanas em outra. O estudante precisa entender essas diferenças.
— Como a escola ajuda nessa orientação?
Trabalhamos com eles a análise das grades curriculares, comparamos o tipo de pergunta exigida por diferentes vestibulares para o mesmo conteúdo. Uma questão de genética na USP é diferente de uma questão de genética na PUC. Isso não é técnica — é metacognição. Estou pedindo para o estudante entender o que ele sabe e o que o outro está pedindo que ele demonstre.
— E quanto às carreiras em si?
As carreiras são muito mais amplas do que parecem. Um médico pode trabalhar só com auditoria e precisar de conhecimentos de administração. Um geógrafo pode atuar na área ambiental, cruzando biologia, física e ciências da terra. Os cursos de hoje levam a mais cursos, e as especializações permitem que cada um vá afinando seu percurso. A escolha do vestibular não é definitiva — é o primeiro passo de uma trajetória que continua se construindo.
“Quando falo em vestibular, não estou falando de uma prova. Estou falando de uma escolha fundante para a vida.”
— A escola faz algo além da sala de aula para ampliar esse processo de escolha?
Sim, e isso é fundamental. Trazemos profissionais de diferentes áreas para conversar com os estudantes — selecionados a partir dos interesses manifestados por eles mesmos. O profissional conta sua trajetória desde a escola: como foi o processo de escolha, como viveu a universidade, quais foram as dificuldades, como chegou até onde está.
— Qual é o impacto desses encontros?
É enorme. É a hora que os estudantes se mexem na carteira. Eles percebem que existe um mundo real que até então só sabiam o nome. Um arquiteto, por exemplo — o estudante pode ter um tio arquiteto, mas quando escuta alguém falar do próprio percurso, de como foi, do que é ser aquele profissional, os olhos brilham. Às vezes diz: “eu nunca tinha pensado nisso.” E uma luz se acende. Mesmo que não seja da área de interesse, a fala de um profissional acende um lugar que o estudante ainda não acessava — o mundo adulto, o mundo profissional.
— E as visitas às universidades?
São momentos de muito encantamento. Quando o estudante entra em uma universidade e se encontra naquele ambiente acadêmico, ele deseja estar lá. E esse desejo move para os estudos. Muitos voltam com outro engajamento — entendem que o que o professor está dizendo em sala tem a ver com o lugar onde querem estar. Para alguns, reafirma o caminho. Para outros, dá um ânimo, um propósito. Depois das visitas, é comum ouvir: “Eu me vejo aqui. Você vai me ver aqui o ano que vem.”
— Vocês também promovem encontros com ex-estudantes da EGV?
Sim, e esse é outro lugar muito especial. Ouvir de alguém que esteve nas mesmas salas, com os mesmos professores, e que fez esse percurso — com tudo que ele tem de incerto e de possível — tem um impacto diferente. Eles contam como foi o Ensino Médio daqui, o que fizeram, o que aproveitariam de forma diferente. Para os estudantes do terceiro ano, isso é muito concreto.
“Não há conhecimento sem necessidade e desejo. Quando o estudante vê onde quer estar, o estudo ganha outro sentido.”
— O que você diria para um estudante que está começando o terceiro ano agora?
Que é um ano diferente, sim. Que vai exigir mais concentração, mais escolhas, mais disciplina. Mas que tudo que foi aprendido nos anos anteriores está aqui — dentro dele. O vestibular não é um teste de sorte. É um momento de usar bem o repertório que foi construído. E que a escola está junto, do início ao fim.
— E para as famílias?
Que confiem no processo. Que dialoguem com seus filhos sobre esse universo de escolhas — sabendo que o mundo de hoje é diferente do que viveram. E que a escola está aqui para caminhar junto com eles. Quando escola e família estão alinhadas, o estudante se sente mais seguro. E segurança é condição para aprender.
“Mente, corpo, intelecto — e vamos lá fazer uma boa prova.”
Solange Souza é coordenadora do Ensino Médio da Escola Granja Viana.
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